julho 03, 2009
Sócrates e a "Fortuna"
Ontem, na Quadratura do Círculo (Flashback, para os saudosistas, e Tempo de Antena, para António Costa), o Presidente da Câmara de Lisboa, num daqueles momentos de falta de vergonha que, quando se trata da personagem, nunca escasseiam, disse que "a única" (imagine-se, a única) coisa que "correu mal" ao Governo foi "a sorte" (por, claro, não ter tido). Pacheco Pereira, que leu uns livros, logo exclamou: "a Fortuna". António Costa, que leu menos (para ser simpático) não percebeu. E Pacheco Pereira, infelizmente, não explicou. Assim, o autarca lisboeta ficou sem saber que a "Fortuna" é um elemento que Niccolo Machiavelli, esse senhor que todos conhecem (mal) tratou no seu famoso O Princípe.
Se tivesse lido o livro (e compreende-se que tenha ficado pelos resumos, porque O Princípe não é das leituras mais agradáveis), António Costa saberia que, se há coisa com a qual um político não deve desculpar o seu fracasso, é com a "Fortuna". Para Machiavelli (perdoem-me se não "traduzo" o nome do senhor), a "Fortuna" era "como um daqueles rios" que "se encolerizam e inundam as planícies em redor, destroem árvores e casas, tiram de um lado da terra para dar de outro", e "diante" dos quais "todos fogem" e "cedem", "sem nada poder fazer para os conter". No entanto, ela é também como uma "mulher", que, para se "conservar submissa", é necessário "espancar" e "violar" (o homem não estava, de facto, em sintonia com as agudas sensibilidades dos nossos tempos). Ou seja, vendo a "Fortuna" como algo difícil de enfrentar, Machiavelli achava que, em certa medida, ela poderia ser "controlada". Se é verdade que uma vez "encolerizado", o rio da "Fortuna" não vê obstáculo ao seu "furor", é também verdade que, "quando o tempo está calmo", "os homens não deixam de ter a liberdade de construir muralhas e diques", para lhe "conter o furor" e permitir que os estragos "não sejam tão ruinosos". A Itália, pensava Machiavelli, havia sido "a sede das revoluções" por ser "um campo sem diques nem muralhas", e assim sem meios para fazer frente à "cheia".
António Costa acha que o Governo teve o azar de apanhar pela frente a "cheia" da crise internacional, que terá impedido Sócrates de colher os frutos das suas "reformas". O problema é que essas "reformas" não foram reformas nenhumas: Sócrates sofreu o "furor" da "cheia" porque não se preparou para ela nos "tempos calmos". De facto, não controlou o défice: mascarou uma despesa cada vez maior com uma carga fiscal ainda mais pesada. Não mudou nada na Segurança Social: adiou o rebentar do balão das pensões. Não mudou nada na forma como o Estado se relaciona com os cidadãos: berrou contra os "interesses" ao mesmo tempo que tudo fazia para não os ofender. O resultado final foi apenas o empobrecimento relativo dos portugueses no presente, sem lhes dar condições para que no futuro possam vir a alterar essa condição.
Quando chegou a crise, o país estava ainda mais frágil (e não "melhor preparado", como pretendiam Sócrates e os seus aguadeiros) do que os outros para a enfrentar. Em vez de construir diques, deixou os campos abertos e destruíu as poucas muralhas que ainda tínhamos. Quando veio a "cheia", Portugal estava vulnerável ao seu "furor". António Costa pode achar que a "única" coisa que correu mal ao Governo foi a "sorte" que não teve. O facto de não ter conseguido lidar com essa falta de sorte é a prova de que tudo correu mal, pois nada do que o Governo fez nos "tempos calmos" foi capaz de nos proteger da "cheia". Sócrates e o PS não se podem queixar dessa caprichosa senhora que é a "Fortuna", pois o mero facto de se queixarem mostram que fracassaram, que foram incapazes de "a conservar submissa". Por causa desse fracasso, vamos ter agora de lhe bater com ainda mais força. Não será agradável, especialmente para nós.
Posted by Bruno at 04:47 PM
julho 02, 2009
O Governo e a Realidade
O senhor meu pai costuma dizer que não é difícil deixar de fumar: ele próprio o fez várias vezes. A crer nas declarações de vários dos nossos Ministros ao longo dos últimos anos, também não é difícil sair da crise que nos tem afectado desde (pelo menos) 2001: pelos vistos, já conseguímos sair dela várias vezes. O último a anunciá-lo foi o actual Ministro das Finanças Teixeira dos Santos. Aparentemente, terá havido um "aumento da confiança" dos "agentes económicos" (peço desculpa pela linguagem), que mostra como o pior já esteja para trás. Não ocorre ao senhor Ministro que esse "aumento de confiança" possa ser injustificado, que não passe de uma avaliação errada da parte dos tais "agentes", e que como tal, não é, só por si, "sinal" do que quer que seja. E se houve coisa que a "crise internacional" mostrou foi como nós, seres humanos, somos por natureza cegos a grande parte da realidade, e temos "confiança" em muita coisa que não a merece.
Para algumas cabecinhas pouco ajuízadas, como a do Carlos Abreu Amorim, ficaram espantadas com o facto de tais declarações virem de um "bom ministro" (uma espécie análoga ao "bom alemão" do tempo da II Guerra) como supostamente será o das Finanças. Só espanta como alguém pode ficar espantado por Teixeira dos Santos. dizer o que disse. Pois foi este mesmo "bom ministro" que, há mais de um ano, disse que Portugal ia passar ao lado da crise internacional. Aliás, estas declarações mais recentes de Teixeira dos Santos não mostram apenas um "optimismo" insuficientemente justificado: são, isso sim, mais um sinal de como, pelo menos desde 2008, a conduta do Governo se pautou, a todos os níveis, pela mais compelta insensatez, e entrou no domínio do patológico. É que, bem vistas as coisas, estas declarações mostram o nível de demência que parece ter assaltado os membros do Governo. De facto, já nem para si próprios conseguem ser bons.
Desde o seu início que este Governo, representada na figura viscosa do seu Primeiro-Ministro, não passou de um anúncio publicitário. Durante anos, quis convencer as pessoas de que estava a fazer tudo, sem, na realidade, fazer nada. Quis fazer crer as pessoas de que Portugal estava a sair da "crise", e com muita manipulação, lá conseguiu iludir os mais crédulos (que, a crer nas sondagens, eram abundantes). Como vária gente sensata disse, a crise internacional veio desfazer o encatamento, e mostrar às pessoas o que o Governo escondia por trás do véu que deitou sobre a realidade.
Quando a crise internacional se abateu sobre o país, ou melhor, quando ela ainda apenas ameaça abater-se, o Governo reagiu perante ela da única forma que conhece: com propaganda, procurando manipular as pessoas. E começaram a dizer que as políticas dos últimos anos nos preparavam como nenhum outro país estava preparado para enfrentar a crise. Como era evidente, independentemente dos méritos (poucos) das políticas governamentais, independentemente de terem ou não preparado o país para semelhante crise (não prepararam), uma crise internacional a economia dos nossos parceiros europeus, o que por sua vez afectaria as nossas exportações, sobre as quais assentavam as previsões (já de si muito optimistas) do Governo. Ou seja, era evidente que, por muito bem preparado que o país estivesse (e não estava, como se viu), a pobreza congénita do país o tornaria mais frágil que a maioriza dos nossos vizinhos.
O governo não podia acreditar no que dizia. E portanto, tais declarações só podiam ser compreendidas como exercício de propaganda. O que, no entanto, não as torna mais compreensíveis. Perante dificuldades como as que os portugueses sentem todos os dias, risonhas declarações como as de Teixeira dos Santos encontram uma audiência pouco receptiva: as pessoas, se pararem dois minutos para pensar e olharem para a realidade, não acreditarão no que o Ministro lhes diz. E mesmo que acreditem, não se percebe o que leva o Governo a dizer coisas dessas a seguir. Pois os seus Ministros certamente percebem que o que dizem não é verdade, e que quando a realidade bater à porta (se é que não já entrou pelas nossas casas), à medida que as delirantes previsões do Governo são constantemente revistas ("em baixa", obviamente), quando os portugueses perceberem que as "reformas" socráticas não preparam o país para uma situação de crise, o sentimento de ilusão que tais declarações procuram comprar terá de ser pago a dobrar. Que, à beira das eleições, a percepção quotidiana da realidade da crise custará ao PS o apoio eleitoral das pessoas que ainda vão acreditando no que Sócrates lhes diz. O Primeiro-Ministro e o Governo não lucram nada em esconder a realidade dos cidadãos. O problema é que Sócrates já está tão habituado a recorrer à propaganda sempre que se vê num aperto, que não só não conhece outra forma de agir, como parece já nem ser capaz de distinguir a realidade da doce fantasia que criou a partir de São Bento. O que as declarações de Teixeira dos Santos mostram, como já haviam demonstrado em 2008, é que, com a sua propaganda, o Governo não só está a tentar enganar os cidadãos, como se está a enganar a si próprio. Mostra como o Governo olha para tudo, menos para a realidade. Pior é impossível.
Posted by Bruno at 04:36 PM
junho 30, 2009
No Fora.Tv
Victor Davis Hanson acerca da decadência das Universidades.
Posted by Bruno at 10:30 PM
junho 29, 2009
O Polvo (publicado no Insurgente)
Durante três dias, estive imerso no Curso de Verão do IEP-UCP. Exactamente, caro leitor, não se enganou: isso quer dizer que passei três dias em intensos contactos (pouco ou nada frutíferos) com jovens estudantes com idade pouco mais que legal, e também que passei três dias quase completamente alheado do "mundo real". Ontem, pondo a informação em dia, descobri que o tal "mundo" mais parecia "surreal" do que real: nos Estados Unidos, um doente mental morreu, e não se falou de outra coisa um pouco por todo o lado; em Portugal, soube-se que a Portugal Telecom queria comprar a Media Capital (dona da TVI), que o Primeiro-Ministro, tal como nós, também não sabia de nada (e segundo ele, nem tinha de saber), e que, depois de "saber" (ou seja, depois de nós sabermos que ele sabia), achou que seria melhor "vetar" o negócio. Achei melhor ler os jornais mais uma vez para ter a certeza que não tinha percebido mal. Não. Tinha lido bem. Não fiquei mais descansado.
Não havia como ficar, e parece que foi uma reacção partilhada pela generalidade das pessoas. Mas, como de costume, o que realmente era relevante na questão passou quase completamente ao lado da discussão. A crer no que li, toda a "inteligência" pátria se preocupou em saber se Sócrates sabia ou não do negócio, ou seja, se o negócio visava "silenciar" a informação da TVI. Não que isso não seja importante, e que não fosse profundamente negativo e censurável que o Primeiro-Ministro tivesse dado ordens para a PT comprar parte da Media Capital com o objectivo de se proteger politicamente. Mas a questão vai muito para além deste caso concreto e do pouco apreço que Sócrates tem por tudo aquilo que não esteja de cócoras perante a sua excelsa pessoa.
Estando Sócrates informado ou não do negócio, pretendendo ou não "silenciar" a TVI, a compra da Media Capital pela PT seria algo de extremamente grave para o panorama mediático português: visto que o Estado detém a famosa golden share da PT, caso esta adquirisse a empresa que detém a TVI, o Estado passaria a ter o controlo de mais um canal de televisão. Independentemente de quem detenha o poder, seria uma tragédia (meço bem as palavras que estou a usar) se o Estado pudesse ter a última palavra a dizer acerca dos assuntos de mais um canal de televisão: para além dos dois canais da RTP, passaria a controlar também a TVI, a televisão de maior audiência em Portugal. E como quem não quer a coisa, juntaria à RTP N (que mais não é que uma RTP3) a TVI 24, ou seja, deixaria apenas um canal generalista e um canal de informação no Cabo fora das mãos do poder político. Muito preocupados com as idiossincracias pouco democráticas de Sócrates, a maior parte dos comentadores não se conseguiram aperceber que o "autoritarismo" da coisa vai para além das intenções conjunturais do "animal feroz".
Por muito que este pormenor lhes tenha escapado, o que é verdade é que a barulheira crítica do negócio levou o Primeiro-Ministro a vetá-lo. A "inteligência" pátria, claro, rejubilou com a sua "vitória". Como de costume, não se apercebeu do facto de não ter tido vitória nenhuma. Pois até o desfecho aparentemente positivo do "caso" PT/TVI mostra como o "polvo" estatal não tem fim, como aliás só dificilmente terão fim as consequências que daí advêm.
O que faltou à maior parte dos que festejaram o "recuo" de Sócrates foi perceber que o negócio talvez pudesse realmente ser um bom negócio para ambas as partes, e que, só porque Sócrates se apercebeu de que a sua confirmação seria negativa, do ponto de vista eleitoral, para o PS (por "parecer" ser uma tentativa de silenciar a TVI), ele foi "vetado". O que todo este caso mostrou foi, não apenas que o "polvo estatal" tem a possibilidade de passar a controlar tudo aquilo que ainda não controla, mas também que esse mesmo "polvo" pode interferir com tudo e mais alguma coisa, desde que não seja conveniente para as perspectivas eleitorais ou políticas de quem controla o dito "polvo". Pessoalmente, não vejo aqui qualquer razão para festejar.
Posted by Bruno at 06:01 PM
junho 27, 2009
A Ler
Numa altura em que anda tudo muito excitado com o Irão (e eu ando com demasiado sono para conseguir escrever algo minimamente decente), deixo aqui um texto (descoberto via Reihan Salam, acerca da (preocupante) realidade no Paquistão, de Bruce Riedel na The National Interest.
Posted by Bruno at 12:07 AM
junho 24, 2009
Estado de Alma

Gasto.
Posted by Bruno at 11:39 PM
junho 23, 2009
A Ler
Este post do Alexandre Homem Cristo sobre a entrevista de Menezes ao i:
"Luis Filipe Menezes qualificou Pacheco Pereira de ‘a loira do PSD’, numa referência cinematográfica ao filme La Dolce Vita, de Fellini, e a polémica instalou-se. Mas há algo de muito suspeito nesta sua tirada. Chamem-me preconceituoso se quiserem, mas não acredito que Menezes fosse espontaneamente capaz de um comentário tão sofisticado e elegante no decorrer de uma entrevista, o que me leva a crer que esta metáfora vinha preparada, que foi rabiscada de véspera e reescrita mil vezes até soar na perfeição. Assim, compreende-se a declaração de Menezes como parte de uma estratégia muito bem delineada: atacou inteligentemente alguém que sabia que iria reagir, e teve ainda a sorte de fazer manchete de jornal, conseguindo um impacto maior do que previra.
Mas que objectivo nesta estratégia? É que Menezes está na sombra a tempo demais. O ano eleitoral não lhe tem sido favorável, e afastou-o das luzes da política nacional. Na verdade, o que Menezes gostaria é de ser a tal ‘loira do PSD’. Por isso, acendeu uma polémica com um inimigo antigo, que para além disso ocupa um espaço que ele inveja. Contudo, a política não funciona como o cinema, e para se tornar numa ‘bela loira’, Menezes precisa de mais do que um fait-divers, o que trocado por miúdos significa que nunca passará de uma ‘loira falsa com madeixas’. O que diz muito sobre o carácter de Menezes. O resto é conversa e muita falta de bom senso."
Posted by Bruno at 11:59 PM
junho 22, 2009
O Holograma (publicado no Insurgente
Fora de casa e sem grande acesso a informação por uns dias, passou-me despercebida a grande discussão da semana, esse tema de premente importância que é a suposta “transformação” do senhor Primeiro-Ministro de um “animal feroz” para um “português suave” (como alguém disse). Hoje, pondo-me em dia com o que se passou, não pude deixar de ficar surpreendido com o interesse que a questão suscitou. Acima de tudo, fiquei surpreendido com a quantidade de gente que levou a sério a manobra.
De facto, custa a crer como pode haver quem tenha pensado que Sócrates tenha, mesmo que por meras razões eleitoralistas, “mudado”. Sócrates não mudou. E não apenas por, como foi notado, por exemplo, por Pacheco Pereira, ele não conseguir deixar de ser o homem malcriado e arrogante que tem desfilado perante o país nos últimos anos. Mesmo que Sócrates consiga não ser um “animal feroz”, ele será o mesmo, não mudará. Pela simples razão de que Sócrates é, como também muito bem disse Pacheco Pereira há vários anos, um “holograma”. É um gigantesco vazio de personalidade que, por isso mesmo, pode ser tudo e o seu contrário. Não passa de um fato Armani que serve a qualquer um, capaz de fabricar toda e qualquer personalidade (até a de “engenheiro”). “Animal feroz” ou “português suave”, Sócrates é sempre uma e mesma coisa: um anúncio publicitário, uma “imagem” destinada, pura e simplesmente, a agradar.
Dir-me-á o leitor que não, que, no início, Sócrates foi “corajoso”, que enfrentou interesses. Não foi, e não enfrentou. Berrou contra alguns desses interesses, para agradar ao eleitorado apreciador da “autoridade”. Longe de uma “corajosa” postura de não se importar de perder votos para mudar o que era preciso, Sócrates fingiu mudar, cobardementemente deixando tudo na mesma, para conquistar os votos que fingia não se importar de perder. Como bom invertebrado que é, adoptou a postura que melhor lhe convinha. E quando a postura contrária se tornou mais conveniente, também não hesitou em “mudar”.
O problema de Sócrates foi que a sua propaganda funcionou bem demais: apesar de tudo ter ficado na mesma, ou seja, bem pior, Sócrates quis levar as pessoas a crer que tudo tinha passado por uma autêntica revolução. E as pessoas acreditaram, e por isso, os tais “interesses” manifestaram um descontentamento manifestamente injustificado contra alguém que, na prática, mais não fez do que os preservar. E então, o fato Armani mudou de cor: quando até fingir que mudava deixou de ser popular, Sócrates passou a fingir que “dialogava”. A “inteligência”, nos jornais, nas televisões, na rádio, delirou (não há nada que provoque mais admiração na “inteligência” portuguesa do que os esforços de alguém para a manipular), e chamou os especialistas em “marcas” (que devem de facto saber do que falam, pois promovem-se muito bem) para discorrer sobre o assunto. Obviamente, nenhum notou a única coisa que havia notar: finja Sócrates uma coisa, ou finja outra ou aqueloutra, estará sempre, apenas e só, a fingir. Isso não muda, nem vai mudar.
Posted by Bruno at 10:51 PM
junho 20, 2009
De Volta
Parece que sobrevivi. Mal, mas sobrevivi. O calor bracarense não é pêra doce, especialmente com o pouco sono que tive nos últimos dias, e ainda para mais tendo optado por andar horas e horas pela cidade, e imediatamente a seguir, pôr-me a jogar futebol com miúdos indígenas. Assim, não é de espantar que no dia seguinte, não estivesse nas melhores condições para dizer o que tinha a dizer (se a coisa estiver minimamente decente, irei pôr aqui a gravação da minha intervenção), e que hoje, embora de regresso, esteja mais "para lá do que para cá".
Posted by Bruno at 10:32 PM
junho 17, 2009
Pequena Interrupção
A partir de amanhã, estarei em Braga, onde sexta-feira irei simular inteligência perante um grupo de académicos, atirando-lhes vagas considerações acerca da questão de saber se "é realmente errado os políticos mentirem". Ou seja, nos próximos dias, irei enfrentar uma gigantesca combinação dos meus maiores receios: um calor infernal, dormir (pouco) numa cama que não a minha, ter de falar com estranhos, ter de falar perante estranhos, fazer um nó de gravata, sabe Deus mais o quê. Nem sequer um computador terei. Por isso, nos próximos dois dias, este blog estará parado. Se sobreviver, sábado cá estarei para contar como foi.
Posted by Bruno at 11:27 PM
junho 16, 2009
As Legislativas Serão Uma Eleição Sobre "Carácter"strong> (publicado no Insurgente)
Ontem, o PS reuniu-se, para debater a estratégia eleitoral para as legislativas e ainda sem ter percebido muito bem o que lhe aconteceu nas europeias. Como seria de esperar, e no meio de muita conversa vaga acerca de "pedir maioria" e da necessidade de "estabilidade", Sócrates e os seus aguadeiros lá vierem falar do "rumo" que, obviamente, é para "manter". Pode assim o bom povo socialista ficar descansado: pelo menos até Outubro, vão continuar a haver "jobs" para os "boys", o dinheiro da propaganda vai continuar a jorrar para cima dos "consultores" de "imagem" (e, em período eleitoral, vai jorrar ainda mais), e, não vá o diabo tecê-las e o PS perder o poder em Outubro, muitas benesses vão ser distribuídas à pressa para aproveitar o que poderão ser os últimos meses de acesso à mesa (cada vez mais vazia) do sempre magro (e mesmo assim excessivamente pesado) Orçamento da Nação. O rumo, de facto, é para manter, apenas não levará ninguém a bom porto, nem mesmo o Primeiro-Ministro.
Escusado será dizer que, na cabecinha do Primeiro-Ministro, a parte mais importante do tal "rumo" é precisamente a propaganda. E não é vão. Afinal, e como ele muito sabe, foi a propaganda que o fez, como foi a propaganda que durante muito tempo e apesar da realidade, o foi mantendo nas boas graças dos portugueses. Sócrates não sabe agir senão através das encenações diárias que lhe vão montando, e nas quais ele mostra os seus fatos Armani e proclama estarmos perante um "momento histórico", mesmo que o dito momento consista de uma instalação de uma retrete na Escola Primária de Alguidares de Baixo, ou, como é bastante mais comum, do anúncio de uma futura instalação de uma retrete na Escola Primária de Alguidares de Baixo. Mas, para mal do Primeiro-Ministro, tenho dúvidas que o método socrático (o outro que me perdoe) funcione por muito mais tempo.
A razão é simples, e se o Primeiro-Ministro soubesse ler, bastaria dar uma olhadela a este artigo de Jackie Ashley no Guardian para a perceber (sendo assim, peço aos aguadeiros para lhe fazerem um resumozinho). Discutindo a recente polémica acerca da necessidade de "cortes" no Orçamento britânico, Ashley diz que o Labour, ao se catalogar como o "partido do investimento" (contra os tories partidários dos abomináveis "cortes") se está apenas a condenar à irrelevância: segundo Ashley, já toda a gente percebeu que, devido aos níveis colossais da dívida pública contraída por Gordon Brown, os tais "cortes" na despesa pública serão inevitáveis, seja qual for o governo; ao negar a evidência, o Labour transforma uma discussão que poderia ser acerca de escolhas (o que cortar, quais as prioridades da despesa pública, etc.) numa questão de carácter (o partido que fala a verdade, o partido que nega a realidade).
Não é difícil de perceber, até para um aguadeiro socrático, como isto é um aviso ao nosso Primeiro-Ministro. Durante meses, vários inquéritos mostravam como uma larga maioria de pessoas duvidava do carácter de Sócrates. Ao mesmo tempo, o PS continuava a liderar as sondagens. Isto, que chocava algumas almas (incluindo a minha), não deveria ser surpresa (e aqui me penitencio pela ingenuidade): enquanto Sócrates parecia "estar a fazer", o bom povo não se preocupava com a "engenharia" a que Sócrates recorreu para obter o grau, nem com as confusões do "Freeport"; Sócrates estava a "fazer" (ou pelo menos assim as pessoas pareciam ir acreditando), e mais valia um "espertalhão" que "pusesse as coisas a mexer" do que uns virtuosos sem "genica".
Até que apareceu a crise. Sócrates, numa daquelas frases de político sem cérebro em que ele se especializou como poucos em Portugal, disse à saída do sarau de ontem que o Governo estava a enfrentar o natural "desgaste" de quem está no poder numa conjuntura destas (Marcelo Rebelo de Sousa, outro especialista neste tipo de raciocínios, deve ter ficado orgulhoso). Não lhe ocorre que, numa conjuntura destas, são os Governos que mais beneficiam, pois só os Governos podem beneficiar: só eles têm o poder, só eles podem demonstrar liderança (mesmo que ilusória), que é o que as pessoas procuram nestas ocasiões de incerteza. Se o Governo socialista não beneficiou deste efeito, foi porque algo mais aconteceu por causa da crise. E o que aconteceu foi precisamente o que aconteceu em Inglaterra: o peso da dívida, e o irrealismo de continuar a gastar dinheiro do orçamento como se não houvesse amanhã, começaram a tornar-se evidentes para as pessoas.
Até aqui, o "carácter" duvidoso de Sócrates interessou pouco ao eleitor comum. Este via Manuela Moura Guedes atirar-se ao pescoço do "engenheiro", e certamente apreciava o espectáculo. Mas não estava disposto a votar pela virtude contra a carteira. Agora, talvez tenha começado a perceber que a carteira começa a ser esvaziada. Enquanto isso, Sócrates insiste no TGV, no Aeroporto, e no "investimento" em geral. Para aqueles que começam a ver a carteira a esvaziar, e que começam a perceber que a política de Sócrates siginfica que ela ficará ainda mais vazia no futuro, insistir no investimento público como caminho para o paraíso parece uma simples e vergonhosa deturpação da realidade. E aí, como Jackie Ashley diz, a questão passará a ser a do "carácter" dos líderes partidários. Até aqui, a propaganda puxava o debate político português para o campo que mais favorecia o Primeiro-Ministro, o da ilusão e das promessas vazias mas sedutoras. A partir do momento em que a realidade se tornar evidente (e torna-se cada vez mais), a propaganda, por ser irrealista, puxá-lo-á para o que mais o prejudica, o do "carácter".
Desenganem-se, no entanto, aqueles que possam ver nesse cenário uma boa notícia para o PSD. É certo que Manuela Ferreira Leite parece gozar, junto da "opinião pública" (essa entidade mítica e tão difícil de compreender), de uma imagem de "seriedade" e "verdade", que ela própria, aliás, não se cansa de exibir (e faz muito bem). Mas um debate centrado no "carácter" (ou falta dele) de um político acabará fatalmente por se transformar num debate sobre o "carácter" dos políticos. E aí, o maior beneficiário será obviamente o populismo do Bloco de Esquerda, não a "seriedade" de Ferreira Leite. Aliás, não me espantaria que o próprio Sócrates fosse insistindo no tema Freeport, para puxar a campanha para o mais perto possível no lamaçal onde ele gosta de chafurdar: ele sabe que, quanto mais suja for a campanha, mais "indecisos" darão o seu voto a partidos histéricos como o CDS/PP e o BE, em vez de o darem a um "partido de Governo" como o PSD. Se a propaganda continuar a ser capaz de enganar uns quantos, e a nojeira empurrar os que nela já não acreditam para os braços de Louçã ou de Portas (Paulo) e não para os do PSD, talvez Sócrates se consiga manter no poder em Outubro. É, no entanto, um destino que não lhe desejo. E não apenas por não querer que o meu país continue a ser governado por ele. Ficar refém de Louçã ou de Portas é um destino que não se deseja a ninguém.
Posted by Bruno at 11:16 PM
junho 15, 2009
"Um Ano Sem Verão"
Meio adormecido e a mudar os canais na televisão mais por reflexo do que vontade, oiço uns senhores na NBC a falarem, quase atemorizados, de um "year without Summer". Eu, que mal tenho suportado o calor dos últimos dias, fico com alguma esperança. Pessoalmente, um "ano sem Verão" seria do melhor que me poderia acontecer.
Posted by Bruno at 11:58 PM
junho 14, 2009
A Canção da Gazprom
Via Daniel Finkelstein, descubro a canção da Gazprom:
Posted by Bruno at 09:44 PM
junho 13, 2009
Um Governo Melhor (publicado há dias no Insurgente)
No editorial do i de segunda-feira, Martim Avillez Figueiredo escrevia que “a derrota de Sócrates” nas europeias de domingo tinha “uma virtude”, a de que “quanto mais quem está no poder sentir que pode deixar de estar, melhor governará”. É um bonito sentimento, que só fica bem ao seu autor. Mas duvido que ele venha a ter qualquer tradução na realidade. Quanto mais não seja pela simples razão de que, mesmo que Sócrates percebesse que as suas políticas têm sido fundamentalmente erradas, não é em três meses que o Governo vai deixar de ser a desgraça que tem sido para passar a “governar melhor”. Até porque “governar melhor” implicaria forçosamente ser impopular, o que não é o caminho mais usual de melhorar as perspectivas eleitorais em tão pouco tempo. Se a derrota de domingo fizer Sócrates “mudar de rumo”, essa mudança será para pior e não para melhor: Sócrates e o Governo irão esbanjar ainda mais dinheiro, empenhando ainda mais o futuro do país, para poder fingir que está a resolver os problemas. Um Governo melhor, só mesmo quando este se for embora.
Posted by Bruno at 09:59 PM
junho 12, 2009
A Ler
O que o Luciano escreve acerca das eleições no Irão.
Posted by Bruno at 10:12 PM
junho 10, 2009
Se o PSD Ganhar As Legislativas, Como Poderá Governar?
A vitória do PSD nas europeias do passado domingo fez com que muito boa gente, que antes achava que Manuela Ferreira Leite nem uma gripe conseguiria apanhar, começasse a achar que há uma possibilidade de o governo mudar de mãos nas legislativas que se avizinham. No entanto, a "discussão" continua a girar em torno de saber se Ferreira Leite será ou não capaz de vencer as eleições. Esse tem sido o grande "debate" acerca da liderança do PSD: saber se a senhora tem "jeito" ou se comete demasiadas "gaffes"; se é "capaz de mobilizar" ou se não será "demasiado cinzenta"; se "passa bem" em televisão ou se é "demasiado velha". Ora, muito mais importante do que essa questão de saber se a vitória do PSD é ou não possível, é a de saber o que vai o PSD fazer se chegar ao poder. E talvez mais importante ainda (e ainda mais ignorada) é uma outra questão, a de saber como a forma de chegar ao poder irá condicionar o seu exercício.
Se o PSD chegar ao Governo, e independentemente de ter maioria absoluta ou não, enfrentará enormes dificuldades: chegará ao poder com um défice público monstruoso, com um país profundamente endividado, e em plena crise, numa altura em que esta se fará sentir de forma muito mais acentuada; chegará ao poder com o desemprego a subir, com os rendimentos das pessoas a baixarem, numa conjuntura em que o Estado, para resolver os problemas do défice público, terá de aumentar os impostos ou diminuir a despesa (ou promover uma letal combinação das duas). Com maioria absoluta ou sem ela, em coligação ou governando sozinho, o PSD está condenado a provocar descontentamento junto do eleitorado. Com maioria absoluta ou sem ela, em coligação ou sozinho, o PSD terá muito pouca margem de manobra para fazer aquilo que será necessário fazer. A forma como o PSD chegar ao poder, ou seja, a forma como acabará por conduzir a sua campanha nas legislativas, será decisiva para o PSD conseguir conquistar alguma, mesmo que escassa, dessa margem de manobra necessária para levar a cabo políticas que serão inevitavelmente impopulares.
Os responsáveis do PSD terão de colocar a si próprios uma questão: "como é que podemos pedir aos eleitores um mandato para promover políticas de austeridade numa conjuntura em que elas serão particularmente penosas para esse eleitorado"? Infelizmente para os responsáveis políticos do PSD, eles terão apenas dois caminhos possíveis, nenhum deles particularmente seguro. Poderão, numa primeira hipótese, pedir um autêntico "cheque em branco" ao eleitorado. Ou, em alternativa, poderão pedir um mandato concreto para determinadas políticas. Como já disse, não me parece que qualquer um deles (e estes são mesmo os únicos possíveis) ofereça grandes garantias de sucesso.
Comecemos pela segunda hipótese, a procura de um mandato concreto para a aplicação de uma série de medidas, apresentadas de forma específica e detalhada, antes das eleições. Teria, obviamente, uma grande vantagem, a de deixar claro a todos quais as dificuldades que iriam ser enfrentadas, diminuindo assim o efeito de "choque" que a introdução dessas medidas forçosamente teria. Explicando antecipadamente aos eleitores que um corte de tantos por cento na àrea tal, que a subida deste imposto ou daquele, durante um determinado período, teriam esta e aquela consequência, e eles antecipadamente sufragassem essa política, a revolta contra essa série de medidas seria certamente menor.
O problema desta estratégia de campanha começa precisamente na possibilidade de os eleitores não sufragarem essas políticas. Afinal, aquilo que irá forçosamente complicar a sua introdução uma vez no poder é precisamente a sua impopularidade, e há o risco de a manifesta necessidade de as aplicar não ser suficiente para convencer as pessoas a estarem dispostas a sofrer as consequências: há anos e anos que vivemos com as consequências de um défice excessivo, e mesmo assim há por aí muita cabecinha que prefere viver na ilusão de que nada precisa de mudar.
O leitor poderá argumentar que a vitória do PSD nas europeias mostra como as pessoas já estão dispostas a aceitar a realidade, e que a tentação da ilusão da vida acima das nossas possibilidades é cada vez menos sedutora, precisamente por iludir cada vez menos. Admito (e espero) que tenha razão. Mas mesmo que o eleitorado corra a votar em quem lhe prometa nada mais que sangue, suor e lágrimas, esta estratégia tem um outro problema. Como não será difícil de perceber, a procura de um mandato concreto implica a realização de compromissos concretos. Ora, o problema da crise actual é precisamente a sua imprevisibilidade: não sabemos quanto tempo ela vai durar, que consequências terá, e muito menos quando terá quais consequências. Todo e qualquer compromisso que o PSD assuma para com o eleitorado nas semanas anteriores à votação poderá, pura e simplesmente, perder a validade um ou dois meses depois. Ou seja, a vantagem que a estratégia eleitoral de procura de um mandato concreto para a realização de políticas concretas (a de o eleitorado saber previamente o que esperar, para que o PSD não tivesse de o desagradar ainda mais) rapidamente desapareceria quando a receita apresentada já não respondesse aos novos males entretanto surgidos. Nessa ocasião, o Governo do PSD perderia credibilidade, e a dra. Ferreira Leite teria ainda mais dificuldades para apresentar as políticas que essas novas condições ainda mais difíceis exigiriam.
Isto poderia conduzir a que se aceitasse que a outra estratégia eleitoral possível, a de pedir um "cheque em branco" ao eleitorado, fosse mais aconselhável. E de facto, se o PSD conseguisse demonstrar aos eleitores que o descalabro governativo de Sócrates foi de tal ordem que as dificuldades a enfrentar nos próximos anos nem sequer são previsíveis, esse mesmo eleitorado estaria à partida predisposto a aceitar toda e qualquer política que visasse resolver os problemas deixados pelo socratismo. E precisamente por avisar para o sangue, o suor e as lágrimas, sem especificar as respectivas quantidades, o PSD não correria o risco de ser ultrapassado pelos acontecimentos: sem mandatos concretos, não há compromissos concretos. Desde que o descalabro socialista ficasse devidamente demonstrado, e as pessoas ficassem previamente preparadas para a hipótese de qualquer tipo de política poder ter de ser introduzida, o Governo poderia facilmente adaptar-se às necessidades do momento.
Mas também este caminho não está isento de problemas. A começar por também ele não ser garantia de vitória eleitoral. Para ser bem sucedida, a estratégia do "cheque em branco" implicaria um ataque brutal ao PS e ao Governo de Sócrates. Por muito que Sócrates não seja propriamente amado pelos portugueses, nada garante que eles apreciassem uma campanha tão violenta como esta teria de ser. Aliás, o generalizado desprezo popular a quem "está sempre a dizer mal", em vez de "trabalhar em conjunto" para "o bem do país", poderia significar que essa estratégia seria particularmente condenada eleitoralmente.
Mas admitamos que essa estratégia conseguiria ultrapassar esse sentimento contrário à maledicência. Mesmo que o PSD ganhasse as eleições com essa estratégia, nada garante que ela oferecesse boas condições de governação. Pois o tal ataque brutal que seria necessário para descredibilizar o PS, ao ponto de oferecer o tal "cheque em branco" ao PSD para fazer o que quer que fosse necessário, correria o risco de acabar por descredibilizar, não apenas o PS, mas toda a classe política, tendo em conta a má imagem que todos os nosso governos têm junto da opinião pública. Procurando descredibilizar o PS, o PSD correria o risco de, mesmo ganhando as eleições, se descredibilizar a si próprio. E descredibilizando-se a si próprio, deixaria de ter as condições para, no poder, fazer o que quer que fosse necessário.
Não é garantido que o PSD ganhe as eleições, tal como não é garantido que o PSD saiba o que é necessário fazer. Mas o pior é que, mesmo que ganhe as eleições, e mesmo que tenha plena consciência das políticas que necessitará de promover, o PSD, faça o que fizer para chegar ao poder, venha a ter condições para o exercer convenientemente. Não é uma perspectiva animadora. Mas seria bom que, lá para os lados da São Caetano, não estivessem iludidos acerca do que os espera, e que na medida do possível, se fossem preparando para o que aí há de vir.
Posted by Bruno at 10:13 PM
junho 09, 2009
Obama e Guantanamo
Vale a pena ler este post de Con Coughlin sobre o "dilema" de Obama a propósito de Guantanamo:
The arrival of the first Guantanamo detainee on the American mainland to stand trial on terrorism charges has highlighted the deep misgivings many Americans have about having some of the world's most dangerous terrorists in their midst.
Having made the commitment to close the controversial detention facility in Cuba, American President Barack Obama has no other option than to move the bulk of the remaining detainees to the American mainland.
But as the White House is fast discovering, not all Americans show Mr Obama's enthusiasm for moving the detainees to America. Congress has already refused to sign off the funding needed to close Guantanamo, and now many Americans are expressing concern that many former detainees will end up being freed in America because there is insufficient evidence to prosecute them.
Thankfully that is not the case regarding Ahmed Ghailani, who has been transferred from Guantanamo to New York to stand trial on charges relating to the 1998 bomb attacks against the American embassies in Kenya and Tanzania. American prosecutors are confident they have a strong enough case to secure a conviction against Ghailani, who is accused of being a key member of the al-Qaeda cell that carried out the attacks.
But the same cannot be said about the cases of the many other Guantanamo detainees, many of whom were caught in circumstances that make if virtually impossible for prosecutors to assemble a case that was secure a conviction.
If that is the case then American courts will be obliged to set them free, a prospect that is causing genuine alarm among ordinary Americans. The FBI estimates that more than 70 former Guantanamo detainees have returned to terrorist activity following their release.
Just imagine the mayhem that would cause on the American mainland if a similar proportion the current batch of Guantanamo detainees followed a similar path.
Posted by Bruno at 11:59 PM
junho 08, 2009
Posts No Insurgente sobre as Eleições
"The King Stay The King"
O Conflito Interno No PSD Não Vai Diminuir
O Spin Para Os Próximos Dias
Posted by Bruno at 01:17 AM
junho 06, 2009
Votar ou Não Votar

Nos últimos dias, ao ler os jornais ou vendo a televisão portuguesa, fui sendo informado que sou um ser desprezível (algo que já me tinha ocorrido, confesso) e um ingrato que desconhece o valor da liberdade (o que me surpreendeu e preocupou um pouco mais). É verdade, caro leitor: não tenciono votar amanhã, e isso faz de mim uma criatura indigna de ser classificada dentro da espécie humana e merecedora apenas de desprezo. Pelo menos é o que me têm dito, através dos mais variados órgãos de comunicação social, as mais altas luminárias da Nação, desde António Vitorino a Luís Figo (figura que, ao contrário do primeiro, me merece algum respeito), passando por Paulo "contemporâneo" Almeida Sande, director do gabinete de propaganda da UE em Portugal e uma simpatia de pessoa.
Segundo estes nossos Cíceros, o exercício do meu "dever" de votar constitui aquilo que de mais nobre um cidadão pode fazer numa democracia, e ficar em casa a dormir (não vou à praia, porque dispenso o contacto com pessoas) mostra o carácter pouco virtuoso da minha pessoa, bem como dos 60 ou 70% que tomarão o mesmo caminho que eu. Longe de mim negar que a participação cívica através é uma virtude. Mas não só me custa a aceitar que seja a única ou até a mais alta, como tenho sérias reservas em relação à ideia de que a participação cívica passa forçosamente pelo voto.
No meio de tanto sermão acerca da necessidade de ir votar, não parece ocorrer a ninguém que a abstenção possa resultar de uma intensa atenção à vida política ou de um reflexão séria a propósito dos méritos relativos de ir votar ou celebrar a ocasião com uma higiénica ausência da cabine de voto. Claro que uma parte significativa (para não dizer a maioria) não opta pela abstenção: está em abstenção, abstém-se diária e permanentemente de prestar a mínima atenção, de dedicar sequer um segundo do seu tempo, às querelas do dr. Nuno Melo com o Ministro Jaime Silva ou ao projecto arqueológico de recuperação do português arcaico, levado a cabo por Vital Moreira depois de abdicar da campanha eleitoral.
Mas haverá também muita gente que, como eu, se abstém precisamente porque dedica o seu tempo a ouvir o dr. Nuno Melo, ou a prestar atenção aos berros de Ilda Figueiredo (outra figura que me merece algum respeito). Gente que não só se "preocupa com o país" (uma actividade que fatalmente apenas conduz ao desespero e à frustração), como "pensou" (perdoe-se o pretensiosismo) sobre a "Europa" (há gente dada a temas etéreos como estes). É, lamento dizer, o meu caso. Caro leitor, amanhã ficarei em casa, a dormir até à hora de almoço (se me deixarem), mas não por insatisfação com a classe política portuguesa, sentimento que há muito deixou de me motivar para o que quer que seja, e muito menos por indiferença às questões europeias. Ficarei em casa precisamente porque tenho opiniões formadas acerca da "Europa" que me levam a querer "manifestar-me" (perdoem-me o termo) ficando em casa e ignorando as eleições para o Parlamento Europeu.
Há por aí o costume de dizer que o PE é a única instituição democrática da União Europeia, e que por isso deveria ser amado e activamente acarinhado por todo e qualquer bom europeu. (o dr. Almeida Sande, por exemplo, ganha a vida a espalhar estes bons sentimentos pelo país, sem grande sucesso). Resta que o Parlamento Europeu é tudo menos uma instituição democrática da UE: não havendo um povo europeu, os eleitos para aquela instituição não são verdadeiros representantes dos cidadãos. Esses estão nos parlamentos nacionais. O Parlamento Europeu é apenas uma ficção de Parlamento, em que cada deputado está lá a defender os interesses do seu país, e não a representar realmente quem quer que seja.
É precisamente por isso que amanhã não tenciono votar. Luis Figo que me perdoe, mas nem ele me conseguiu convencer. Nem ele, nem Paulo Rangel, que apreciava já antes de estar na moda, e em quem gostaria de ter o prazer de votar. Nem sequer a ideia de criar uma "onda de mobilização" laranja para as legislativas me faz ir ao Centro Comunitário de Caxias para pôr a minha cruzinha no boletim de voto. Pura e simplesmente, não quero, com esse meu voto, comportar-me como se encarasse o PE como mais que uma ficção, e os seus deputados como legítimos representantes da minha pessoa, dos meus vizinhos, dos meus compatriotas ou sequer dessa entidade obscura a que se dá o nome de "europeus". Pessoalmente, parece-me uma atitude bem mais virtuosa que o beatismo europeísta que excita algumas das nossas maiores figuras, ou que o propagandismo acéfalo e invertebrado do dr. Vitorino. Agora, só espero que não me acordem, senão fico com o dia todo estragado.
Posted by Bruno at 11:20 PM
junho 05, 2009
Há 65 Anos

Posted by Bruno at 11:58 PM
Um Governo de Fracos (publicado no Insurgente)
Assaltado por uma curiosidade mórbida, tenho estado nos últimos dias a assistir ao espectáculo no Reino Unido, com a chuva de demissões no Governo de Gordon Brown em plenas eleições europeias e locais (as votações decorreram ontem). As coisas já há muito que não corriam bem para Brown, e só pioraram com o anúncio da saída de Jacqui Smith (até há uns dias Ministra do Interior) e Hazel Blears (que detinha a pasta das Comunidades, seja lá isso o que for). Sendo de esperar um resultado desastroso para o Labour tanto nas locais como nas europeias, e sendo que os resultados destas últimas só serão conhecidos domingo e segunda, Brown contava guardar a "remodelação" governamental para o início da próxima semana, para "abafar" os maus resultados na cobertura noticiosa.
Segundo dizem os jornalistas britânicos, Brown contava promover o seu aguadeiro predilecto, Ed Balls, para o Tesouro, para poder gastar ainda mais do dinheiro que manifestamente não tem na "reanimação" da economia. Mas com a demissão de James Purnell, Ministro do Trabalho e das Pensões, e os rumores de uma carta circulando pelo grupo parlamentar trabalhista pedindo assinaturas (são necessárias pouco mais de setenta) para provocar uma eleição interna, o plano foi por água abaixo: teve início uma revolta para o derrubar, e demissões de gente como Alan Johnson (até hoje Ministro da Saúde), David Miliband (uma figurinha desprezível que parece que é Ministro dos Negócios Estrangeiros) e Alastair Darling (Ministro das Finanças) tornariam a posição de Brown insustentável.
Alastair Darling, em particular, era um problema, pois para promover Balls e ficar livre para a asneira, Brown teria que despachar Darling, que aparentemente recusaria outro lugar que não o que ocupava. Depois da demissão de Purnell e com um golpe em pleno desenvolvimento nos Comuns, Brown não se podia dar ao luxo de arriscar outra demissão, e manteve Darling (e portanto, Johnson e Miliband) no Governo.
Mas o Governo é um Governo de fracos. Em primeiro lugar, chefiado por um fraco, o próprio Brown, cujo falhanço em promover o fiel protegido Balls mostrou como as peripécias desta semana fragilizaram de tal forma a sua autoridade que ele nem sequer é capaz de formar o Governo que deseja, e que, forçado a antecipar a "remodelação", ficará à mercê dos resultados de segunda-feira, sem truques que o protejam da tempestade. O que nos leva a fraqueza dos restantes Ministros: ao aceitarem fazer parte deste Governo, Johnson e Miliband, putativos candidatos à sucessão, perderam toda a margem de manobra para, segunda-feira, reagirem ao descalabro e forçarem Brown a sair. Claro que contam com a prestimosa ajuda dos deputados do Labour e as 75 assinaturas que se preparam para forçar a saída do escocês. Mas o manifesto oportunismo do seu "apoio" a Brown ontem e hoje, à espera que outros lhe dêem a facada final nas costas daqui a uns dias, dificilmente agradará a um eleitorado que, manifestamente, já não suporta Brown e os restantes membros do Governo.
O grande problema do Labour é o de que a fraqueza não se limita ao Governo, mas a todo o partido. Pois até Purnell não fica bem na fotografia: dar início ao golpe e ser apanhado sozinho com as calças na mão mostra tudo menos capacidade de liderança. E por ter dado início ao golpe, parecerá um traidor aos olhos dos militantes mais leais do Labour. Assim, quando Brown acabar por ser empurrado, seja na próxima semana (quando para além das europeias e da tal carta, parece que será discutida uma moção de censura nos Comuns), seja daqui a uns meses, vai ser dificil arranjar alguém capaz de conquistar a liderança. Se os militantes do Labour tiverem uma reacção pura e simplesmente tribal, a liderança cairá no colo de Harriet Harman, outra criatura abjecta que compensa o facto de não ter uma ideia na cabeça com a capacidade de apelar precisamente ao sentimento tribal do partido. Se agirem com um mínimo de racionalidade, os militantes não poderão, por causa do seu triste comportamento em toda esta crise, escolher nenhum dos suspeitos do costume (Johnson, Miliband), e terão de optar por alguém que seja, ao mesmo tempo, um crítico de Brown (sem ser demasiado blairista, o que exclui Alan Milburn ou Charles Clarke) e alguém que tenha estado pouco envolvido nas confusões dos últimos dias. Assim de repente, só me ocorrem os nomes de Frank Field (que não estará para se chatear) ou Jon Cruddas, a não ser que optem pela "via Michael Howard" (um senhor velhinho que não dure muito tempo e seja escolhido precisamente por essa razão), e optem por John Reid (que teria de deixar o Celtic de Glasgow). Se ainda restar um pouco sanidade aquela gente, escolherão Cruddas. Se Cruddas, no meio do esquerdismo, ainda tiver algum juízo, não se vai deixar meter nessas confusões.
Posted by Bruno at 11:50 PM
junho 04, 2009
Dissociações e Associações
Ontem, Vital Moreira achou por bem prolongar a sua vergonhosa insistência no "caso BPN", afirmando num comício do PS que o PSD se tem de "dissociar daquela situação" sob pena de os eleitores perguntarem "que medo tem o PSD para não se dissociar do caso BPN". Curiosa teoria: segundo este especialista em Direito, enquanto uma pessoa ou instituição não se "dissocia" de algum acto ou comportamento menos respeitável, então deveremos ser levados a pensar que há razões para pensarmos que eles estão "associados" a eles. Por essa ordem de ideias, o PSD não é apenas responsavél pelas "tranpolinices" de "Oliveira e Costa e tutti quanti": Manuela Ferreira Leite, que eu saiba, não se "dissociou" do Holocausto, e não tardará que os cidadãos se perguntem se ela não será nazi; não se "dissociou" do caso do assassinato de um refém americano da Al Qaeda, o que obviamente põe a nu as suas simpatias por Bin Laden; e claro, não se dissociou do rapto do bebé Lindberg, o que nos permite entrever toda uma nova luz sobre o mistério.
O ridículo do raciocínio é óbvio. Pois ao contrário do que Vital Moreira parece (já lá vamos) crer, por definição, só se dissocia quem reconhece uma prévia associação: só se dissocia de algo quem está associado, ou foi associado por outrem. E Vital Moreira percebe isso muito bem. Percebe muito bem que, se o PSD lhe fizesse a vontade e se "dissociasse" das tais "tranpolinices", estaria dessa forma a reconhecer que está associado a elas, que é precisamente o que Vital quer. Vital Moreira não está preocupado com a possibilidade de os cidadãos perguntarem "que medo tem o PSD para não se dissociar do caso BPN". Vital Moreira deseja que os cidadãos se perguntem "por que razão vêm eles dizer que não têm nada a ver aquilo", suspeitando que, se dizem nada ter a ver com as ditas "tranpolinices", é porque na realidade têm. Até agora, o PSD não lhe tem feito a vontade. E espero que assim continue.
Posted by Bruno at 08:42 AM
junho 03, 2009
Registado
Ouvi há pouco o dr. Vital Moreira exclamar, com grande excitação, que os senhores da televisão que o andam a seguir podiam "registar" o que ele ia dizer, que era "exactamente o que quis dizer", e depois disse (algo que nem eu nem ninguém se recorda muito bem). Ficou, no entanto, "registado". Quando, daqui a um ou dois dias, Vital Moreira vier dizer que não era bem aquilo que ele queria dizer, basta ir ver o "registo".
Posted by Bruno at 10:18 PM
junho 02, 2009
Sobre Vital Moreira
Por razões que agora pouca ou nada interessam, tenho andado, nos últimos tempos, ocupado com os livros mais antigos de Vasco Pulido Valente. Em Esta Ditosa Pátria, a dada altura, pode ler-se um artigo, de 1990, em que Pulido Valente comenta um livro de Vital Moreira sobre o PCP (e a sua "renovação"), e diz que Vital "oferece um partido populista (...) com uma retórica um pouco abstrusa". "Populista" e "abstrusa" são bons adjectivos para a campanha que o dito Vital Moreira está a fazer nas "europeias", especialmente na já famosa (e vergonhosa) declaração da "roubalheira do BPN" e sa associação do PSD à dita. Há por aí muito boa gente que se surpreende com a "decepção" que tem sido a conduta de Vital Moreira (como se ele não tivesse sido um dos mais descarados propagandistas do "engenheiro" nos últimos anos). Na realidade, não há razões para ficar "desiludido", a não ser para quem estivesse realmente muito iludido: pelos vistos, em 1990, Vital já era assim.
Posted by Bruno at 10:57 PM